“É uma honra ter vivido na mesma época que David Bowie” – Patrick Stump relembra seu ídolo

David Bowie morreu no dia 10 de janeiro após uma longa batalha contra o câncer, apenas dois dias após seu aniversário de 69 anos e do lançamento de seu 25° álbum, Blackstar. Não há como exagerar o impacto do ícone pop em muitos dos luminares da nossa cena – artistas que, por sua vez, moldaram tanto do som e da cultura que são parte do tecido da comunidade alternativa: Trent Reznor e Marilyn Manson estão entre muitos acólitos francos de Bowie. O pirmeiro álbum solo de Gerard Way, Hesitant Alien, deve muito ao falecido pioneiro do pop, moda e filme que usou brilhantemente “alienigena” como uma metafora. O vocalista do Stone Temple Pilots, Sott Weiland, (que morreu em dezembro) não se desculpava por venerar Bowie em seu primeiro álbum solo em 1998, 12 Bar Blues. Memso com tanto carinho que Bowie recebia de tantos outros artistas, é difícil imaginar um fã maior de Bowie dentro da música contemporânea do que Patrick Stump. O voclaista do Fall Out Boy foi generoso o suficiente para dividir suas palavras sobre a morte de David Bowie com a AP.

COMO DITO A RYAN J. DOWNEY

Eu sou um fã tão grande do David Bowie que você poderia pensar que eu perdi um parente ao ver o tanto de e-mails e ligações que eu tenho recebido desde que ele morreu. Muitas pessoas estão me perguntando “Ai meu Deus, Patrick. Você está bem?”

Minha esposa me viu [após a morte dele] e ela perguntou, “Porque você não está chorando por causa do David Bowie? Achei que ele era seu cara favorito”. Veja, quando o Robin Willians morreu eu chorei que nem um bebê. Eu fiquei tão bravo. Ele morreu repentinamente e de forma muito trágica. Nós não queríamos pensar no Robin Williams sendo triste. Mesmo em sua morte, nós éramos confrontados com isso. Ele é Robin Williams! Ele é essa parte incrível da nossa infância. Mas lá estava um homem de verdade que era meio que ignorado quando nós estávamos escutando ele como o Gênio em Aladim.

David Bowie era uma entidade completamente diferente.

Quando era criança, eu o conhecia do filme Labirinto e de seus grandes hits pop como “Modern Love” e “China Girl”. Ele sempre estava lá, mas a primeira vez que o notei – tipo, realmente o notei – eu estava no carro com meu pai dirigindo por Chicago. Nós estávamos ouvindo essa estação de rádio local chamada WXRT e eles tocaram “Sound And Vision” do álbum de 1977, Low. Foi tão estranho, tão diferente de tudo que eu já tinha escutado, incluindo tudo que eu já tinha escutado dele. Eu estava lá sentado ouvindo e eu disse para o meu pai “Oh, eu gosto disso” e aumentei o volume. Mas então eu fiquei realmente autoconsciente. Eu sabia que a música era esquisita, então eu não tinha certeza se isso significava que ela não era legal. Então eu fiquei “Hm, eu não sei…” e meu pai me disse “É muito legal gostar do David Bowie”.

Três dos cinco primeiros discos em vinil que eu tive eram álbuns do Bowie.

Quando você está ouvindo pequenos fragmentos de músicas como “Rebel, Rebel” ou “Dancing In The Streets” com Mick Jagger, você pode até não saber a diferença entre o Bowie e os Rolling Stones. Mas quando você vê pedaços de outras fases da carreira dele você percebe que esse cara pode fazer de tudo. Nos anos 90 ele fez o Outside e saiu em turnê com o Nine Inch Nails! Você consegue imaginar Gary Glitter lá fora com o Trent Reznor ou qualquer um com quem o Bowie estava aglomerado nos anos 70? Ele transcendeu toda aquela falta de noção do glam-rock e qualquer coisa mais, de longe. Antes do lançamento do Earthling, ele fez um show de aniversário de 50 anos, no qual Lou Reed, Robert Smith, Dave Grohl e Billy Corgan tocaram com ele.

Como fã, eu esperava que o Bowie morresse em uma banheira de laser em Marte, ou alo assim. Ou talvez ele enterrasse a cara literalmente em uma montanha de cocaína. Eu não esperava que ele morresse de algo que pessoas normais podem morrer por terem; ele parecia esse personagem totalmente transcendente que viveria para sempre. Tem uma parte dentro de mim que está pensando “Eu realmente pensava que ele fosse um alienígena de verdade!”

Segundo a lenda, The Thin White Duke {* nome de um dos personagens de Bowie} vivia em uma dieta de pimentas vermelhas, cocaína e leite enquanto vivia em Los Angeles e estava gravando Station To Station. Essa é outra razão pela qual nós não esperávamos que ele partisse, porque ele sobreviveu a todas as drogas nos anos 70. Se esse homem fosse morrer, teria sido em 1976!

Isso faz você pensar na sua própria mortalidade de uma forma engraçada, porque é tipo, “Oh uau, o David Bowie pode ter câncer? Isso é louco”.

Nós não conhecíamos a pessoa. Nós conhecíamos o personagem transcendente. Nós conhecíamos o personagem de David Bowie e isso parecia que nós sempre teríamos uma nova ideia louca e brilhante do David Bowie. Foi a mesma coisa com o Lemmy do Motörhead. Ele sempre estaria lá, certo? Nós passamos a esperar que ele fosse uma ancora da atitude do rock’n’roll.

David Bowie foi uma pessoa que eu me certifiquei de nunca encontrar. Eu não queria conhecer ele, sabe? Eu literalmente tinha pôsteres do Bowie por toda a minha parede antes mesmo de ser um adolescente. Mas isso não significa que eu queria saber de sua vida pessoal. Eu queria saber tudo sobre a sua arte. Eu queria saber mais sobre a arte do que sobre o homem, mas é claro, eu li todas as biografias e todos os artigos.

Como Davey Jones, ele queria ser uma estrela do pop “normal”. Mas a verdade é que ele nunca poderia ser. Ele tinha que ser David Bowie. Era a única opção. Ele era super legal, tão único, essa coisa estranha, esquisita, honesta e sincera.

De acordo com o que entendi, ele era obsessivo e nerd sobre todos os tipos de assunto. Ele precisava saber tudo sobre tudo. Ele sentava e lia sobre filosofia, jazz, poesia, qualquer coisa. Ele realmente absorvia tudo. Eu ouvi essas lendas sobre ele ler um livro inteiro por dia; consumindo arte, interagindo com a arte, contribuindo para a arte.

Algumas pessoas tiveram o visual do Ziggy Stardust. Aquilo era algo que você podia copiar. Mas você não podia nem ter esperanças em chegar perto da forma como ele podia falar com tanta eloquência, mas quase atropeladamente sobre arte, ou a forma como ele podia criar arte que era desafiadora e às vezes frustrante, mas sempre brilhante. David Bowie é a coisa mais legal do mundo. Teve um artigo muito bom do Cracked alguns anos atrás sobre “celebridades que você idolatra e celebridades você se parece”. Uma parte natural da vida é aceitar que enquanto você pode eventualmente ser muito bom em algo, você nunca será tão legal quanto o David Bowie. Nunca. Tenho pena do cara que o interpreta no filme biográfico.

Uma das coisas mais interessantes sobre o legado do David Bowie é a grande gama de pessoas que apreciam seu trabalho. Os mais fanáticos do hard rock, os mais fanáticos pela arte intelectualizada, os fãs de pop dos anos 80, pessoas que amam os Muppets e tantas outras, nós sempre diremos “o Bowie é nosso”.

Em 1998, antes das mídias sociais, Bowie ofereceu aos fãs a chance de ter uma interação única com ele e sua arte através do BowieNet, que era um provedor de internet, tipo o AOL! Você podia até ter o seu endereço de e-mail da BowieNet. Eu gostaria de acreditar que a BowieNet alcançou a senciência e o Bowie simplesmente existe dentro da BowieNet agora. Sério, ele é apenas uma lenda agora. Nenhuma critica irá tocá-lo.

A morte dele realmente me faz querer mais ainda abraçar abertamente as pessoas que criaram as coisas que eu gosto. Vamos celebrar o Paul McCartney. George Lucas! Eu te amo! Eu sinto muito por termos ficado bravos com as prequels de Star Wars. Obrigado por tudo.

Como Warren Zevon disse “A vida irá te matar”. Nós todos vamos morrer um dia. Mas eu imagino que tenha sido assim a sensação quando Mozart ou Picasso morreram. Para os fãs, como eu, é uma honra ter vivido na mesma época que David Bowie.

Tradução do artigo de Patrick Stump e Ryan J. Downey para a Alternative Press feita para o Fall Out Boy Brasil.
Por favor, não utilize sem os devidos créditos.

Bruna Dolores

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parte do fall out boy brasil desde 2005

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